Um episódio, até então inédito, ilustra bem o ambiente que Amorim herdou. Em 3 de outubro do ano passado, logo após o empate por 3×3 contra o Porto, o vestiário do Manchester United pegou fogo.
Poucos dias depois, os executivos do clube, já sob o comando de INEOS, se reuniram em Londres e iniciaram a busca por um novo treinador. O nome escolhido foi Rúben Amorim, então no Sporting, com o acordo sendo fechado ainda em outubro.
O “Poeta” com pulso firme
Quem esperava um treinador mais leve do que Erik Ten Hag se enganou. Conhecido por sua franqueza, Rúben Amorim, que é apelidado por Cristiano Ronaldo como “O Poeta”, mescla discursos inspiradores com críticas diretas.
Logo após a derrota na final da Liga Europa para o Tottenham, o técnico português reuniu o elenco e chamou atenção de vários atletas, inclusive do ex-pupilo Manuel Ugarte, dizendo que ele “não parecia o mesmo jogador dos tempos de Sporting”. O recado foi claro: ninguém está acima da cobrança.
Sua forma de trabalho lembra a de Sir Alex Ferguson, que criticava veteranos como Ryan Giggs para mandar recados indiretos a outros atletas. Amorim prefere falar diante do grupo inteiro, o que gera opiniões divididas no elenco, já que alguns gostariam de conversas mais individuais.
Disciplina e hierarquia
Amorim mantém distância proposital da vida social dos jogadores, preservando autoridade. O treinador reforçou regras de comportamento e pontualidade e criou um grupo de liderança entre os jogadores, que é formado por Bruno Fernandes, Harry Maguire, Tom Heaton, Lisandro Martínez, Noussair Mazraoui e Diogo Dalot. O grupo é responsável por auxiliar na disciplina e nas decisões internas do vestiário.
Taticamente, sua marca é o sistema 3-4-2-1, ponto central do projeto que o trouxe a Manchester. Em Carrington, os treinos são intensos e detalhados: Amorim movimenta os jogadores manualmente, exige sincronia nos deslocamentos e repete jogadas até que o posicionamento esteja perfeito.
Com semanas livres sem competições europeias, ele conseguiu aplicar sessões mais longas e simuladas, incluindo partidas inteiras de treino, com foco em ritmo e entendimento tático.
Relação com a diretoria e bastidores da INEOS
O técnico mantém contato diário com Jason Wilcox, diretor de futebol, e participa ativamente das decisões estratégicas. Sua franqueza e energia são elogiadas internamente, mesmo em momentos de crise, como após a eliminação para o Grimsby Town na Copa da Liga Inglesa.
Segundo Laurie Whitwell, Amorim chegou a cogitar deixar o cargo no auge da turbulência, mas recuou. Hoje, é considerado peça-chave no novo projeto da INEOS, que busca devolver o Manchester United ao topo.
Contratações como Bryan Mbeumo e Matheus Cunha elevaram o nível técnico e o astral dos treinos. A lista de “exilados”, que inclui Rashford, Garnacho, Antony e Sancho, mostrou que Rúben Amorim não teme decisões impopulares. Ainda assim, ouviu o grupo e reintegrou Tyrell Malacia após o fechamento da janela de transferências.
Outro destaque é a melhora significativa em um ponto primordial: o departamento médico. A queda no número de lesões é vista como resultado de uma gestão física mais conservadora. Amorim evita escalar jogadores no limite e tem adotado treinos específicos para prevenir problemas musculares.
Fora do campo, o técnico impôs uma nova política de proximidade com os torcedores: determinou que metade do elenco dê autógrafos antes das partidas e a outra metade faça o mesmo depois. Ele próprio costuma permanecer após o apito final para fotos e conversas, reforçando a conexão com os fãs.
Um ano depois
Quando chegou, Amorim encontrou o United em 14º lugar na Premier League, com 11 pontos em nove jogos e saldo negativo. Hoje, o time está em sétimo, com 18 pontos em 11 partidas e um ambiente mais estável.
Nesse período, o clube viveu de tudo: protestos de torcedores, reestruturação interna, cortes de pessoal e reuniões estratégicas com Sir Jim Ratcliffe chegando de helicóptero a Carrington. Ainda assim, há uma sensação de que o clube, finalmente, começa a reencontrar seu rumo.
O foco agora é voltar às competições europeias. E, como escreveu Laurie Whitwell, “se o Manchester United realmente engrenar, uma vaga na Liga dos Campeões não está fora de alcance”.
Por Laurie Whitwell – The Athletic
Tradução e adaptação por Victor Costa


